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Création poétique

Eloge des voix douces (par Patrick Abraham)

Ecrit par Patrick Abraham , le Jeudi, 05 Décembre 2019. , dans Création poétique, Ecriture, La Une CED

 

Eloge des voix douces, du chuchotement.

Eloge des chemins du bord des fleuves.

Eloge des pas dans la neige.

Eloge du silence en forêt quand les sentiers bifurquent ou se confondent.

Eloge de la rouille, de la mousse, des palissades lépreuses, des façades ravagées où cent tableaux intriguent.

Eloge d’une route pavée où l’herbe regimbe.

Eloge d’un cimetière à l’abandon près d’une église dont on a égaré les clefs.

Eloge d’un parc dont il faut escalader les grilles.

Eloge des ruines tenaces, des quartiers poussiéreux, des squares blafards.

Quand l’hiver grêlera ma chair rose et spectrale (par Julien Quittelier)

Ecrit par Julien Quittelier , le Mercredi, 04 Décembre 2019. , dans Création poétique, Ecriture, La Une CED

 

Extrait du recueil de poésie, Vespéral de l’être.

 

Quand l’hiver grêlera ma chair rose et spectrale…

Que mes cris fouleront le ciel de blanc et d’or,

D’un havre où je verrai le sépulcre en mentor,

Je serai l’hydre aux gongs de l’ultime chorale ;

 

Plus que la densité rêche et fourbe ou morale,

Mourir cent ans n’a plus la saveur de la mort,

Je sens entre mes mains le Céleste du tort :

Quelque avé d’un sang pur qu’estampe l’âme australe.

Poèmes de Pedro Belo Clara Traduits du portugais par Stéphane Chao (2)

, le Mercredi, 27 Novembre 2019. , dans Création poétique, Ecriture, La Une CED

 

NO ABRAÇO DE MAIO

Vales e colinas de jade luzente. À flor dura da tarde, tudo cintilava em cegueiras de vidro. Só a sombra, despida, dançava aos pés do carvalho emudecido.

Os corpos respiravam como o mundo: lentos, naquela ondulação suave de quem não conhece fome. Não viviam sonhos ou cores que não aquelas. As aves bastavam, desfraldadas à brisa de dorso palpitando como prata ao beijo do sol.

À boca levavas o cálice com a graça de quem louva a luz resplandecente, num gesto de rio reconhecendo águas semelhantes. Meu era o silêncio dos trevos. Naquela intimidade solar, esquecia o insistente apelo dos orvalhos.

Nenhum toque era pedido. Parecia que na tangível eternidade do dia as boninas cintilariam pelas noites vindouras. Mas setembro nunca deixa o verão celibatário em sua morte. Que linho se não tinge no desflorar das amoras?

Poèmes de Pedro Belo Clara Traduits du portugais par Stéphane Chao

, le Jeudi, 21 Novembre 2019. , dans Création poétique, Ecriture, La Une CED

 

SAÍDA PARA PIQUENIQUE

Era um tempo em que julgava que as tardes de verão cabiam inteiras na fundura dos teus olhos. E a tua boca era a fresca fonte de todas as canções que o vento desconhecia. Oh, por quantos dias aí não matei a sede lancinante? Nessa soleira donde simples ria a alma vadia, irmã das árvores e dos pássaros de solidão azul?

Um imenso sorriso no começo de cada trilho regando papoilas e cardos, afagando pedras e espinhos que nunca conheceram o peso dum pomo, curando a muda dor da terra como quem abraça o breve terror duma criança de joelho ferido.

Num alegre balanço de flor entregue ao vento, uma cesta sem sonhos pendia das mãos limpas de hesitações. Nela, apenas o pão cozido no ventre da estação, o vinho que regaria as horas por nascer adormecendo num conforto de grão ainda no silêncio da espiga – e todos os frutos redondos que a manhã de linho, na sua maternal generosidade, desejou oferecer.

Jeux II - Contrepoint rétrograde (par Charles Orlac)

Ecrit par Charles Orlac , le Mardi, 12 Novembre 2019. , dans Création poétique, Ecriture, La Une CED

 

II-Contrepoint rétrograde

 

Je lis un livre

Tu livres un lit

Je porte un masque

Tu masques une porte

Je bois une coupe

Tu coupes du bois

Je vois mon père

Tu perds ta voix